sexta-feira, maio 03, 2019


     A fotografia que acompanha este texto não é nada de especial, já tem uns anitos, mas sempre gostei dela. Em 2º plano, a quantidade de informação lá atrás, com a indicação de caminhos, ou direcções, a seguir. No entanto, em 1º plano, o rapaz caminha como que alheado das possibilidades que lhe são propostas e segue o seu caminho, no seu próprio momento, no seu próprio ritmo, inibindo a realidade que o rodeia. Tanto a nível auditivo, como visual (o momento da captura fotográfica permite esta singularidade).
     Há uns tempos fui visitar um amigo meu. Amigo do coração e, talvez, a pessoa mais inteligente que conheço (a nível ciêntífico). Neurociências, mapeamento do cérebro humano, inteligência artificial... cenas maradas e muito complexas para o cidadão comum. Consegue dominar psicologia, biologia, matemática, física, entre outras, com relativa facilidade. Consegue fazer a ponte necessária entre as várias disciplinas que, segundo ele, são fundamentais para compreender o ser humano e o seu funcionamento a nível neurológico. Ele trabalha numa equipa multidisciplinar (pelo que entendi) que inclui psicólogos, matemáticos, físicos, biólogos, entre outros. Mas são "apenas" especialistas na sua área, não dominam outras disciplinas. Podem ter uma luz, um conhecimento base, mas não são, de todo, especialistas que não da sua área de estudo. Para esse meu amigo isso é dificil de aceitar ou compreender. Na cabeça dele, se ele consegue, os outros também deviam conseguir. Deadline impostos por outros é algo que também não aceita. "Não consigo trabalhar assim" diz ele. Não se pode trabalhar em ciência assim. A ciência não tem horários. "Eu não vou produzir mais por estar num escritório das 9 às 5. E o tempo que se perde em reuniões... completamente desnecessário". Quem não o conhecer dirá que será uma pessoa arrogante... com um complexo de superioridade acentuado. Mas não. Tem o maior coração do mundo. Não existe maldade dentro dele, apenas desilusão. Desilusão porque o ser humano está a autodestruir-se, a si e ao planeta, de uma forma muito rápida e está a chegar ao ponto de não retorno. Desilusão porque a ciência não está no caminho certo. Desilusão porque a ciência banalizou-se. Desilusão porque a ciência também é política. Desilusão porque os membros da equipa multidisplinar onde trabalha não são, eles próprios, interdisciplinares. Desilusão porque o avanço no seu trabalho não depende só dele e, como tal, não se desenvolve com a devida rapidez de modo a que ainda possa fazer a diferença no mundo, no ser humano. Ele sente mesmo que o seu trabalho pode fazer a diferença, pode trazer o devido "insight" ou consciencialização para a mudança necessária de forma a que o "mundo se salve". Ou então não. Estou completamente enganado e a romantizar toda uma situação, a fazer todo um filme na minha cabeça, de forma a que alguém que respeito e muito estimo não se esteja a "perder" num complexo de messias. Ou, como qualquer um de nós, a preencher um vazio emocional.
          

Sem comentários: