Mais um dia. Levantei-me uma hora depois do despertador tocar. É habitual. Tomei um banho para acordar, nada de novo. É então que o dia se transforma... para melhor ou para pior... nunca o saberei. O que estava previsto para o dia desmoronou-se. Se era algo importante... sinceramente não. Mas... e agora? Que faço? vou procurar casa (tenho que mudar de casa brevemente)... porque não?
Chego ao carro... multa. mmm... não senti nada. É como se não a tivesse visto. Ponho-me em caminho... andei duas horas... arranjei alguns números... mas o que me preocupou... é como se andasse sozinho... ninguém nas ruas. Uma completa abstracção do outro. Passo por mulheres que são bonitas... que noutros dias me chamariam a atenção... e nada... é como se não existissem. Na altura não me preocupei... apercebi-me agora porquê. Estou tão isolado no meu casulo que não me identifico com nada. Volto para casa... mudo o carro de lugar, não vamos exagerar... já tem uma multa. Hora de almoço... não me apetece cozinhar, como um muesli... fumo um cigarro. Amanhã tenho concerto... é melhor treinar as músicas uma vez que não ensaiámos esta semana. Nada de mais... é mais um. Acabamos por relativizar. toco um blues jazzy... estou destreinado... Tenho que ir trabalhar... num part-time... daqueles para licenciados que não arranjam emprego... Chatear pessoas no acolhimento de suas casas e não só. Passa-se... Venho para casa, hoje não levei o carro. Um colega meu acompanhou-me... um gajo porreiro. Até meio caminho... o resto... vim sozinho. Cheguei a casa... lavar a louça... fazer o jantar... ui... 23h30. café e cigarrito...
Bem, foi um dia passado. Preparar as coisas para amanhã... tenho uma consulta à tarde com um menino. Leio o meu dia e vejo que... é vazio. Talvez o de amanhã seja um pouco mais cheio.
O vazio... refere-se a pessoas... na cabeça... é uma correria de pensamentos.
observo o passado... o que sou hoje. O modo como me afastei de tudo e todos... o modo como não me importo com isso... quer dizer... não me importava. Estou a esforçar-me... quero-lhes dar um significado. A questão que se coloca é se ainda haverá espaço para mim... ele já lá esteve, poderá não estar. Mas... o tentar assusta-me, a inexistência desse espaço assusta-me... e se já não estiver lá? meia noite e quarenta e oito... está a ficar tarde. Devia ir-me deitar e embalar-me a mim próprio. Mas quero escrever... já que não posso... não devo falar com ninguém. A profissão para a qual me formei não o aconselha... há um espaço próprio para isso. Mas posso escrever. As mulheres que amei... mas que não me amaram... consegui superar. Segui com a minha vida. Agora... por incrível que pareça são elas que não me deixam. Não para algo de mais... mas não interessa. Tentam entrar... mas voltam a afastar-se. Isto não faz sentido... não percebo. Mas, pelo menos, trazem alguma emoção a esta vida cinzenta. Não uma emoção presente, mas do que já foi, lembranças de algo. Mas será um interesse? Uma curiosidade? Manter a porta aberta just in case? mmm... Não queria isto a ocupar-me a cabeça. Desorganiza-me, não me deixa concentrar no que de facto é importante. Mas, lá está, o que é de facto importante? É só interrogações... e nada de respostas. Mas acredito que as irei ter. Tenho que parar... não posso escrever tudo num dia... no meu part-time há uma rapariga interessante... mas... é apenas isso... interessante. Não consigo passar disso. Interessante. Faço o que sempre fiz... um ar superior... alheio-me da possibilidade de interacção. A questão aqui é apenas o meu comportamento. Mas as respostas começam a aparecer... o sufoco de uma mãe que amava demais... que queria o filho só para ela... um sufoco tão grande que o filho desejou a sua morte... era única maneira de se libertar... ele não consguia tomar o passo. E aconteceu... ela morreu. uma liberdade inesperada... para a qual não estava preparado... um sentimento de culpa pelo desejo anterior... sozinho... desamparado... não estava preparado para tal. As mulheres com quem estive... nunca as amei... apenas as fodia... é a verdade. Amar... só podia amar uma... a mãe sufocante. Não queria trair o seu amor. Mesmo depois de morta, apesar do seu intenso e verdadeiro amor, continua presente... a sufocar-me. Mas sinto a sua falta, ela transmitiu-me o amor que conhecia de uma vida de sofrimento e trabalho. O seu filho era o que lhe restava, ele compreendeu e aceitou. Mas desejou o seu fim. Não há lágrimas na minha face... é bom. Já consigo pensar nela sem que suscite um odor salino. esta relação, não perfeita, patológica até... era sincera e verdadeira na essência do sentimento... mas desajustada. Mas querem chorar um pouco mais... podemos falar do pai. Um homem que viveu a sua juventude ao máximo... e o corpo não aguentou. Doente nos seus ultimos anos de vida... frágil. Frágil até na seu relação com os animais... como chorou quando o pinóquio (o cão) não apareceu numa noite... a sua companhia... o seu suporte perante a esposa que lhe impunha regras. Lembro-me de algumas coisas... já lá vão uns anos. Da caldeirada que ele fez para os velhos amigos de sempre... as histórias. E lembro-me das suas últimas palavras para o filho... "não vás... não tens que ir... arranjas trabalho aqui..." com lágrimas nos olhos... no cimo das escadas... o filho revoltado por o pai demonstrar tamanha fragilidade perante os outros... agora chamo-lhe coragem por deixar fluir os sentimentos. Meses depois... na noite de ano novo... o filho... lá longe recebe um telefonema... as últimas palavras foram "não vás... não tens que ir... arranjas trabalho aqui..." não é justo... o filho nunca lhe disse o quanto amava... um derrame cerebral... sofreu... cuspiu sangue... o que dá vida inundou-lhe o corpo e tirou-lhe essa mesma vida. O filho... as duas pessoas que o faziam sentir amado foram-se... a hipócrisia... o filho vendeu a casa, fruto de uma vida de luta e trabalho, para poder estudar... a mãe sempre quis que ele estudasse... para ter um futuro melhor. E foi isso que ele fez... às custas de duas vidas de trabalho. Os estudos conseguiu-os... o futuro melhor... nem por isso. Se era necessário escrever isto? extremamente... se considerarmos que nem conseguia pensar... rejeitava... calcava. É um passo em frente no me conhecer... é um passo em frente em aceitar-me... talvez... a partir de agora possa ajudar os outros a conhecerem-me realmente... talvez possa dar-me a conhecer um pouco mais. Ainda há um longo caminho a percorrer... mas com calma... vamos lá chegar... reparem que já escrevo... vamos lá chegar.
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