quarta-feira, outubro 19, 2016

Bruxelas

Primeiro estranha-se depois entranha-se... cliché mas verdadeiro.

     Sentia falta deste sentimento cosmopolita. Fazer parte de uma multiculturalidade intensa sem deixar de ser, sem perder a minha individualidade. Fazer parte de um todo sem ser o centro. Não, não é um paradoxo. É apenas uma questão de pensar um pouco.
     Ao passear trocam-se olhares. A sua duração pode chegar (assim de cabeça) aos 5 segundos. Mais do que suficiente para nos apaixonarmos. Aqui sinto que me poderia apaixonar... estou a ser incorrecto, aqui sinto que poderia idealizar. 
     
     As disparidades são intensas em Bruxelas. Vejo um músico de rua que me faz lembrar o Bob Dylan (a quem por acaso, no dia seguinte, é atribuído o Prémio Nobel da Literatura). Paro para um cigarro enquanto ele toca. 


     Ele está sentado no início de umas escadas laterais, no lado direito, eu estou um pouco mais acima na escadaria central. Vários turistas tiram fotos. Homens de fato e gravata com o seu smartphone sempre em actividade. Por cima das escadas laterais do outro lado, no canto, na sombra, onde as paredes estão cobertas de Graffiti, vejo as tendas, as pessoas e as grades. Daquelas grades usadas para controlar manifestações. Este é o vosso canto, aqui no escuro, para onde raramente se direccionam olhares. Este momento perturbou-me. Eu dirigia-me a um Museu, não interessa qual, o meu objectivo seria o belo do orgasmo intelectual, rodeado de pessoas "bonitas". Mas não consegui ir ao Museu. Não porque sou um bom samaritano, não porque sou a bondade personificada na terra. Simplesmente, naquele momento, não consegui. Virei-me e continuei a andar.


     



     

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